sábado, novembro 28, 2020
Cultura

Goiana radicada em Berlim, Rafaella Braga é nome da SP-Arte para ficar de olho

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A artista está presente. No Instagram de Rafaella Braga a imagem dela e a de sua arte se encontram, numa relação simbiótica, intensa, cheia de mensagens. Parte da geração Z, ela usa a rede como ferramenta – de conexões, de afirmação, de divulgação. “Cresci com a ideia de que ser artista é uma ilusão e, posar com minhas telas, é um manifesto de que eu posso”, diz. Pode tanto que hoje é um dos nomes de destaque da SP-Arte Viewing Room, edição totalmente virtual da maior feira de arte da América Latina, que fica no ar até domingo (30).

Goiana radicada em Berlim, onde mora há dois anos, Rafaella faz a sua estreia no mercado nacional representada pela Galeria Hoa, comandada por Igi Ayedun, que conheceu durante uma residência artística em Barcelona. “Estou com dez trabalhos expostos e sinto orgulho deste hackeamento de espaços, de poder me ver dentro dessa estrutura, acessando potenciais mercados e construindo novas pontes”, afirma. 

Engana-se quem pensa que viver na Europa como artista é fácil, tá? Antes de embarcar para a Alemanha, ela trabalhou um ano como atendente em Goiânia para juntar dinheiro. Em Berlim, já mudou de endereços diversas vezes e faz vários trabalhos para manter a estrutura de casa + estúdio, onde pinta suas telas gigantes, com um quê de grafite. Ah, sim, vem da rua uma das principais referências da artista, que conta mais no papo a seguir:

O que você pinta?
O corpo, suas possibilidades e subjetividades. Tanto o corpo que represento nas telas quanto o meu próprio. A pintura, para mim, é uma necessidade, quase como uma terapia. Tem a capacidade de me levar para outro mundo a que sinto que não tenho acesso. Ela vem de um desconforto e da vontade de criar outra realidade, uma narrativa diferente, mostrar uma nova visão e insistir nesse mundo imaginário. Um mundo dos sonhos, intangível, que busco trazer para o material através das telas.

Como a arte surgiu na sua vida?
Eu tinha 12, 13 anos quando entrei numa escola estadual de arte, em Goiânia. Na época o que eu mais gostava de fazer era desenho em carvão e escultura em argila. Tanto que decidi fazer faculdade de artes visuais para focar em esculturas. Não rolou. Eu estava louca pela prática e só via teoria. Sentia que os professores queriam me moldar. Optei por deixar a universidade e, a essa altura, já tinha criado um grupo de pichação. Amava pintar nos muros, fazer coisas grandes.

E quando entendeu que queria/precisava viver dela?
Lembro que não conseguia criar nada há uns três meses, me sentia muito julgada, tava meio deprê, sem tomar medicação e em busca de métodos alternativos de cura. Comecei a estudar sobre jejum e fiz: só tomei água por sete dias. Pouco antes eu havia encontrado uma tela na rua, que deixei no meu quarto. Passei a semana numa espécie de detox emocional, em que escrevia muito o que eu estava sentindo. No último dia, chorando em catarse, pintei a tela que estava no meu quarto – foi quando nasceu a estética de hoje. Já eram essas  formas orgânicas, os corpos que faço, tudo muito colorido. Conforme a pintura ganhava vida, me levava para outro universo. Pinto sobre minhas inseguranças e vejo uma verdade muito grande em tudo o que há ali.

Viver na Europa faz parte deste processo de autodescoberta?
Em Goiânia sempre me senti rejeitada, deslocada, que os sonhos q eu tinha não podiam ser realizados ali. Achava que isso mudaria quando eu entrasse na faculdade, mas não foi o que aconteceu. Tranquei o curso, fiquei ainda mais perdida. O que fazer sem um diploma? Ao mesmo tempo, pelo Instagram, via artistas jovens na Europa e joguei no Google: “melhores lugares para artistas”. Apareceu Berlim. Comecei a trabalhar para juntar dinheiro e, quando consegui o mínimo, parti com uma mala, sem ter onde morar, muito do nada.

Pensa em como as pessoas vão receber o que você cria?
Acho que forma como as pessoas enxergam a minha obra diz mais sobre elas do que sobre mim. Não tem que ser uma preocupação em si. O mais importante é trazer um momento marcante, criar uma forma da pessoa poder se enxergar ali dentro e experienciar a sua própria verdade.

O que sente ao posar na frente de um quadro seu?
A arte não consegue se separar do artista, por mais que as telas falem por si e eu não precise explicar o que está acontecendo, tenho vontade de me posicionar: Eu, Rafaella Braga, que vim la de Goiânia, eu também posso fazer arte. Cresci com a ideia de que ser artista é uma ilusão e isso é um manifesto. Minha família não pode escolher no que queria trabalhar e entendo desejarem para mim algo que pareça mais estável. Mas estou mostrando que é possível.

Como enxerga o futuro?
Me considero muito esperançosa. Só de este projeto da Igi surgir já traz uma transformação, um novo horizonte, alternativas decoloniais, uma quebra do tempo. Então acredito que é e será possível fazer diferente, propondo novas alternativas, uma nova narrativa sobre nossa história.

Fonte: Glamour

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